Como ler a declaração de IRS: casos práticos de 2024 e 2025

Ainda estamos no rescaldo da entrega da declaração de IRS: algumas pessoas ainda não receberam, outras estão a adiar o pagamento, e uma grande fatia continua sem perceber como funciona este cálculo. Hoje vamos olhar para as minhas duas declarações de IRS, de 2024 e de 2025, para perceber o que significa cada campo e se há, afinal, formas de optimizar este imposto.

Duas declarações, duas realidades diferentes

Escolhi olhar para as duas declarações porque elas representam duas realidades radicalmente diferentes. Em 2024 eu ainda tinha um emprego por conta de outrém em simultâneo com o meu negócio. Em 2025, larguei o emprego e passei a trabalhar em exclusivo na Dama de Ouros e, além disso, usufruí de IRS jovem pela primeira e última vez. Os números refletem essa mudança de forma bastante expressiva:

20242025
Categoria A (trabalho dependente)45.628€2.831€
Categoria B (atividade independente)21.011€57.220€
Rendimento coletável49.691€28.512€
Taxa marginal45,0%43,1%
Deduções à coleta862€1371€
Coleta líquida14.335€7.141€
Resultado finalA pagar 2.456€A receber 175€
Taxa efetiva27,83%15,04%

O Modelo 3 é o formulário onde declaramos todos os nossos rendimentos e outras informações relevantes, e a Demonstração de Liquidação de IRS resume toda essa informação e apresenta os cálculos finais.

Resumindo aqui sob a forma de glossário:

  • Rendimento global (linha 1): a soma dos rendimentos que entram no cálculo normal e progressivo do imposto. Não inclui rendimentos tributados à parte (como os meus dividendos e juros, sujeitos à taxa liberatória de 28%) nem a fração isenta por benefícios como o IRS Jovem.
  • Deduções específicas (linha 2): um valor que é deduzido automaticamente antes de calcular o imposto, específico de cada categoria mas igual para todos.
  • Rendimento coletável (linha 36: o rendimento global menos as deduções específicas. É sobre este valor (mais o que vou explicar a seguir) que se calcula a taxa de imposto.
  • Rendimentos isentos englobados para determinação da taxa (linha 8): rendimentos que, mesmo não sendo tributados, são usados para determinar o escalão de IRS (inclui parcela de IRS jovem).
  • Coleta total (linha 18): o imposto calculado antes de aplicar as deduções à coleta.
  • Deduções à coleta (linha 19): as despesas que podem ser usadas para reduzir o imposto a pagar. Inclui, por exemplo, o PPR (se escolhermos incluí-lo no anexo H), a dedução direta por dependentes, e também as deduções das faturas que pedimos com número de contribuinte.
  • Coleta Líquida (linha 22): o imposto que efetivamente teremos de pagar ao Estado, já com todas as contas feitas.
declaração rendimentos 2025
Demonstração de 2025

O que significa “receber” ou “pagar” IRS

O facto de pagar ou receber IRS depende apenas de uma coisa:

  • durante o ano, adiantei mais ou menos do que o valor total que tenho efetivamente de pagar?

No meu caso, ao longo de 2025, adiantei 7316,39€. 6380,39€ foram retidos na fonte e 936€ em pagamentos por conta. Como o imposto final apurado foi de 7141,03€, isto significa que adiantei mais 175,36€ do que o devido, e por isso este valor foi-me devolvido neste acerto de contas.

declaração rendimentos 2024
Demonstração de 2024

Em 2024 a história tinha sido outra. Fiz retenção de 11 879,88€, mas o imposto total apurado foi de 14.335,48€. Estavam ainda em falta 2455,60€, que paguei neste acerto de contas.

Se somos trabalhadores por conta de outrém, a entidade empregadora retém uma parte do nosso salário todos os meses – é a retenção na fonte. Se somos trabalhadora independente, a partir de certos valores de faturação passamos a ser obrigados a fazer retenção na prestação de serviços ou vendas a empresas, e fazemos ainda pagamentos por conta. O objetivo é que, aquando da entrega do IRS, a diferença entre a coleta líquida e as retenções feitas seja o mais próximo de zero possível.

Fechadas as contas:

  • Se entregámos mais do que devíamos ao longo do ano → recebemos a diferença.
  • Se ainda estamos em falta → pagamos a diferença.

Não tem nada de mágico nem de sorte. No entanto, há um campo que podemos optimizar para reduzir a coleta líquida e, consequentemente, baixar a taxa efetiva de imposto.

Deduções à coleta

As deduções à coleta podem reduzir diretamente o imposto a pagar. A tabela abaixo resumo estes meus números nos últimos dois anos:

Dedução2024 (despesa → dedução)2025 (despesa → dedução)
Despesas gerais e familiares3.929,82€ → 250,00€5.987,86€ → 250,00€
Saúde e seguros de saúde839,01€ → 125,85€1.688,39€ → 253,26€
Educação e formação957,71€ → 287,31€
Exigência de fatura224,17€ → 43,08€271,64€ → 50,61€
Dupla tributação internacional0,00€ → 43,45€0,00€ → 130,16€
PPR2.000,00€ → 400,00€2.000,00€ → 400,00€
Total862,38€1.371,34€

É super importante fazer o trabalho de classificar corretamente as faturas todos os anos, porque diferentes categorias dão direito a benefícios totalmente diferentes:

  • Despesas gerais e familiares: 35% das despesas do dia a dia (supermercado, água, luz, telecomunicações), com um limite de dedução de 250€ por pessoa. O desconto no imposto nunca passa dos 250€ (o equivalente a ~720€ de despesas).
  • Saúde e seguros de saúde: 15% das despesa nestes setores (consultas, medicamentos, seguros de saúde, óculos, aparelhos auditivos), com um limite de dedução de 1.000€ por agregado.
  • Educação e formação: 30% da despesa com propinas, formação profissional, manuais ou cantina, com um limite de dedução de 800€ por agregado.
  • Exigência de fatura: podemos deduzir uma percentagem do IVA pago em setores específicos (15% em restauração, alojamento e cabeleireiros; 30% em ginásios; 35% em veterinários; 100% em passes de transporte e jornais), com um limite de 250€ por agregado.
  • Dedução por dupla tributação internacional: esta está relacionada com os investimentos no estrangeiro, e trata-se precisamente da devolução de valores pagos no estrangeiro, para evitar a dupla tributação sobre estes rendimentos.
  • PPR: podemos deduzir 20% dos valores investidos em PPR, com tectos máximos que dependem da idade.

Em 2025 estas minhas deduções à coleta aumentaram bastante. Primeiro, infelizmente, porque tive despesas de saúde superiores e segundo, aqui numa nota bem mais positiva, porque gastei quase 1000€ em formação e pude ir recuperar 30% desse valor.

“Pedi fatura em tudo e ainda assim não recebi IRS”

As deduções à coleta só têm importância se houver coleta para deduzir: são um desconto sobre o imposto que iríamos pagar, nunca um benefício.

Se o imposto calculado (a coleta total) for, por exemplo, 500€, e as deduções somarem 800€, não recebemos os 300€ a mais. A coleta líquida fica em 0€, simplesmente, e o imposto é zero: não há pagamento de IRS. Se adiantámos esses 500€ na retenção na fonte, recebemos esses 500€ de volta.

Olhando para um exemplo mais extremo, de alguém que recebe o salário mínimo e não tem outros rendimentos: com 12.180€ de rendimentos fica-se dentro do limite do mínimo de existência e, por isso, isento de IRS. A coleta líquida é 0€, e por isso qualquer despesa que se tenha acaba por ser irrelevante a nível de deduções: não há nada a deduzir.

Porque é que a minha taxa caiu quase para metade

Pagar ou receber IRS, como vimos, não nos diz muito a nível dos impostos pagos. Posso pagar IRS e essa despesa ser de apenas umas centenas de euros, como posso receber um reembolso de milhares e ter pago, na prática, vários milhares mais.

Os números que importam são, então: a coleta líquida e a taxa efetiva de tributação. O primeiro, diz-me o valor absoluto que paguei em impostos nesse ano, e o segundo diz-me que percentagem dos meus rendimentos foram usados para pagar este imposto.

Em 2024, a minha coleta foi de 14 335€, com uma taxa real de 27,83%. Em 2025, passou para 7141€, com taxa real de 15%. Os rendimentos tiveram uma diferença de apenas ~10%. A maior justificação para esta discrepância? IRS jovem.

Usufruí do primeiro e último ano neste regime de bonificação para jovens, com isenção de 25% dos rendimentos de categorias A e B até ao limite de 28.737,50€. Tenho menos de 35 anos e 2025 foi o meu 10º ano de descontos para a Segurança Social, por isso pude usufruir desta medida, que foi alargada em 2025.

Além disto, a distribuição dos meus rendimentos mudou bastante. Em 2024, a maior parte do meu rendimento vinha do meu emprego em engenharia (categoria A), quase todo tributado, apenas com a dedução fixa comum a todos. Em 2025, a maior parte passou a vir do meu negócio (categoria B, regime simplificado), onde o coeficiente de 0,75 para serviços e 0,15 para produtos deixa de fora a parte dos rendimentos que a AT considera serem despesas do negócio.

Dividendos, juros e vendas de ativos

Os dividendos e juros são outra grande novidade: mais do que duplicaram face ao ano anterior. No Anexo J, onde declaramos os rendimentos obtidos no estrangeiro, o total de rendimentos de capitais passou de 1.823,24€ em 2024 para 3.820,72€ em 2025. Um crescimento de mais de 100% num só ano.

Este crescimento surge de forma deliberada e planeada, consequência da mudança na estratégia que fiz assim que me aproximei do meu FIRE Flamingo.

O que antevejo para 2026

Abri a minha empresa em novembro de 2025 e por isso os meus números serão significativamente diferentes. Voltei a ter salário e deixei de poupar, por isso os rendimentos a nível individual serão significativamente inferiores, por escolha minha. Recebo salário da minha própria empresa (o mínimo nacional, com reforços ocasionais via Coverflex), e o plano é não faturar mais como trabalhador independente até ao final do ano.

Em números redondos, estimo:

2026 sem englobar2026 com englobamento
Categoria A (trabalho dependente)15.730€15.730€
Categoria B (atividade independente)3.751€3.751€
Anexo J (investimentos)3.800€3.800€
Rendimento coletável12.968€16.789€
Taxa marginal21,2% (+28%)Tudo a 21,2%
Coleta total2860€2600€
Deduções à coleta1130€*1130€*
Coleta líquida1730€1470€
Taxa efetiva7,4%6,3%

Em 2026, mesmo sem IRS jovem, a taxa real de imposto será baixíssima, mas por outros motivos: os rendimentos serão consideravelmente inferiores. Da faturação total de cerca de 23k€, que inclui categoria A, B, e investimentos:

  • 4587€ são deduções específicas da categoria A
  • Metade dos royalties ficam de fora, pelas regras deste tipo de rendimento, e aos restantes serviços é aplicado o coeficiente de 0,75
  • Assumo as mesmas deduções à coleta de 1130€ (aqui não tenho a certeza se será igual, porque felizmente até ao momento não tive despesas de saúde a “ajudar”)

Neste novo cenário, passa a ser vantajoso englobar rendimentos, porque a taxa aplicada é inferior aos 28% “normais”.

Conclusão

Vale a pena perder uns minutos a analisar esta declaração de rendimentos. Antes de mais, é giro perceber as taxas reais e desmistificar aquilo que tantas vezes ouvimos nas conversas de café. NEsta análise, conseguimos ver o valor total de rendimentos, as deduções específicas, e até planear com antecedência esta optimização fiscal: será que valeria a pena subscrever um PPR e obter esta dedução?

Se nunca viste isto, fá-lo agora: faz login nas finanças, pesquisa IRS e vê o teu comprovativo de entrega e declaração de rendimentos. Se tiveres dúvidas ou descobertas giras para partilhar, manda-me email para ol*@*********os.com ou deixa aqui nos comentários 🙌


Perguntas Frequentes

O que significa “receber” IRS?

Significa que, ao longo do ano, entregaste ao Estado mais dinheiro do que o imposto que realmente devias. A diferença é-te devolvida.

O que significa “pagar” IRS?

O oposto da anterior: entregaste menos do que devias ao longo do ano, e tens de pagar a diferença até à coleta líquida apurada na declaração.

O IRS Jovem aplica-se a trabalhadores independentes?

Sim. Aplica-se tanto à categoria A como à categoria B, nas mesmas condições e percentagens de isenção.

Disclaimer: O blogue Dama de Ouros não fornece recomendações ou aconselhamento fiscal ou financeiro. Todo o conteúdo presente neste blog resulta de opiniões pessoais e tem apenas fins informativos e educacionais, sendo qualquer decisão de investimento da responsabilidade do leitor.

Todos os investimentos têm risco. Resultados passados não são garantia de rentabilidades futuras. Faz sempre a tua própria análise antes de fazer qualquer investimento.

As decisões fiscais e de investimento devem ser tomadas com base na tua situação pessoal, idealmente com o apoio de um contabilista certificado.

9 thoughts on “Como ler a declaração de IRS: casos práticos de 2024 e 2025

  1. Acho o IRS uma autêntica dor de cabeça! lol
    Este ano, estão com um enorme atraso no envio da nota de cobrança! Tenho a declaração no estado “certa” desde Abril, estamos quase em Agosto e ainda não recebi a nota para pagar. Ainda por cima é para pagar ao estado! Porque demora tanto? Já os contactei e dizem sempre para aguardar, aguardar… Sim, eu sei que é para pagar e não se deve ter “pressa”, mas a mim faz-me confusão, se é dinheiro que não é meu e vou ter de pagar, preferia “limpar” o assunto mais cedo, lol.
    Acho o IRS a coisa mais irritante, sempre que posso, entrego para alguém me tratar disso.

    1. Pois, isso não tem tanto a ver com o imposto em si mas mais como a forma como os serviços são geridos 😅 percebo perfeitamente, também sou assim! Se é para pagar, também prefiro despachar logo e ficar com o assunto resolvido

      1. mas este ano, que tiveste a receber, foi rápido? e nos outros anos, também demorou assim tanto? este ano está a ser demais!

        1. Sinceramente não reparo muito nas datas. E acho que é sempre uma questão de sorte.. No mesmo ano e a entregar na mesma altura, duas pessoas podem ter experiências completamente diferentes.
          Eu sei, por exemplo, que os investimentos podem fazer com que demore um pouco mais, porque pode exigir validação manual. E depois, assim sendo, depende da velocidade ou volume de trabalho da repartição de finanças que estiver a fazer essa verificação.
          Não há nada a fazer, é aguardar eheh

  2. Eu submeti a minha declaração logo em abril e já recebi a nota de liquidação e já paguei, embora o prazo fosse até final de agosto. Nos últimos anos os meus rendimentos tem aumentado, somos um casal com rendimentos quase e exclusivamente com rendimentos da categoria A e temos um descendente. Durante anos recebíamos, nos últimos dois passamos a ter de pagar e no último foram quase 1500€. O que mudou? Liquidámos o CH em 2024 e em 2025 houve meses que o governo decidiu não cobrar o IRS. Além disso, as tabelas foram revistas e passámos a descontar menos em cada mês, resultando numa maior diferença. Contudo não me importo, prefiro ter o dinheiro do meu lado e ir investindo e depois ter de pagar, do que o estado ter dinheiro meu sem me pagar qualquer juro.

    1. Sim, exatamente! Claro que não dá para ficar com saldo zero, por causa destas deduções à coleta e afins. Mas o objetivo com estas alterações é mesmo que toda a gente nem receba nem pague (ou que seja próximo de zero). Bem melhor termos o dinheiro que é nosso do nosso lado o ano inteiro, apesar de muitas pessoas acharem que o IRS recebido é um bónus ou um presente que o Estado nos dá 😅

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