Buyback vs. penhor de ativos em P2P: o que aprendi em 2020

Se já eras investidor em 2020, provavelmente lembras-te bem do que aconteceu nesse ano. Não só o mundo estava um caos, com restrições e máscaras e recolher obrigatórios e proibições de atravessar concelhos, como a bolsa de valores sofreu a primeira grande queda da década. O S&P 500 perdeu cerca de 34% em pouco mais de um mês, entre 19 de fevereiro e 23 de março de 2020. Foi a queda de 30% mais rápida da história do índice!

É fácil adivinhar a tendência dos investidores naquela altura de incerteza: pânico, tentativas de resgate, dinheiro a sair dos ativos de risco. Neste caso, quem fez aquilo que aprendeu quando começou – aguardar, não entrar em pânico – deu-se bem. E neste caso nem foi preciso esperar muito: o S&P 500 fechou o ano 2020 com uma subida de cerca de 16% face ao valor inicial.

Já nas plataformas de P2P, a história foi outra. Em alguns casos, sim, foi só aguardar. Noutros, a coisa correu pior e houve dinheiro que se perdeu para sempre. E o mais irónico é que correu pior precisamente naquelas que, em teoria, ofereciam maior segurança: o buyback guarantee.

Esta garantia de recompra é a promessa contratual que diz que se um empréstimo entrar em incumprimento, será recomprado pelo loan originator em 30 a 60 dias. É uma promessa excelente no papel mas que, como descobri em 2020, dificilmente poderá funcionar bem, na prática.

Este é o segundo artigo patrocinado da série sobre a Afrangareview completa aqui. A Afranga é uma das parceiras do blogue e aparece neste artigo como exemplo do novo modelo de P2P regulado. Como sempre, o conteúdo, opiniões e análise são integralmente meus.

Promessa vs. realidade

Comecei a investir em P2P em 2019. Mintos, Crowdestor, Grupeer e Raize foram as quatro primeiras. Em quase todas elas, o buyback aparecia como estratégia de proteção central. A lógica era simples:

  • empresto dinheiro a alguém para comprar um carro. Se ele não pagar, o loan originator – a empresa financeira que criou o empréstimo – recompra-mo. Recebo o capital de volta com os juros até à data.

Em teoria, eu só perderia mesmo dinheiro se acontecesse uma de duas coisas: ou o próprio loan originator entrava em incumprimento, ou a plataforma desaparecia. Com o buyback guarantee, o risco do próprio empréstimo seria, em princípio, inexistente. Enquanto tudo estava bem, tudo funcionou. Taxas de juro muito simpáticas, sempre nos dois dígitos, pagamentos pontuais, plataformas em crescimento.

Em 2020 veio a crise COVID, com a tempestade perfeita. Por um lado, pessoas e empresas ficaram sem as suas fontes de rendimento, dificultando o pagamento das dívidas. Por outro lado, investidores quiseram fugir do risco e colocar o seu dinheiro em locais mais seguros, para salvaguardar a sua própria situação instável.

A minha primeira má experiência foi com a Grupeer. Registo o meu património mensalmente e foi assim que fui percebendo que a carteira da Grupeer estava congelada. Não caíam juros, não era possível fazer levantamentos… Mais tarde, comecei a receber emails da plataforma com explicações genéricas do tipo: dificuldades operacionais, medida temporária, necessário “para proteger os investidores”. Depois disto, nada.

A Grupeer anunciava buyback em quase todos os empréstimos, com as mesmas letras grandes e chamativas que as outras plataformas usavam. De nada adiantou e três anos depois, em 2023 dei oficialmente o valor investido como perdido. Não houve buyback, não houve recuperação, não houve nada.

Esta foi a única que me afetou diretamente, mas não foi um caso isolado. Não havia regulação, não havia auditorias obrigatórias nem quaisquer outros requisitos para as plataformas. Cada uma escolhia o seu nível de transparência, o seu modelo de proteção, e o seu nível de risco. A Kuetzal e a Envestio desapareceram também em 2020, também com buyback anunciado e nunca cumprido. A pandemia foi o gatilho que permitiu colocar à luz do dia o problema estrutural que sempre tinha existido: a ausência de qualquer regulador e a garantia de fazer apenas as promessas que se pudesse cumprir.

Ao mesmo tempo, houve plataformas mais sólidas onde o buyback também foi testado, mas com resultados diferentes. Na Mintos, por exemplo, vários loan originators faliram durante a crise (Aforti, Capital Service e Eurocent) e o buyback transformou-se em processos de recuperação lentos, com retornos parciais ao longo de vários anos.

Depois houve ainda o caso da Crowdestor, que na altura era das minhas plataformas preferidas. A Crowdestor não tinha buyback clássico, mas tinha um “Buyback Guarantee Fund“, que na prática era um fundo colectivo alimentado por 1-2% de cada projeto financiado, que permitiria compensar os investidores caso houvesse incumprimentos. Com a pandemia, os projetos entraram em atraso em massa, e o fundo revelou-se insuficiente para a dimensão do problema. A própria Crowdestor mudou o nome mais tarde para Provision Fund, reconhecendo que o termo “buyback” era enganador. O modelo continua a operar hoje, mas parte do meu capital continua em recovery, cinco anos depois.

O que está mesmo por trás de um buyback

O buyback é uma obrigação contratual, o que significa que, se um loan originator entrar em incumprimento, o investidor de P2P torna-se um credor comum como qualquer outro. Nestes cenários, há uma ordem de prioridades para fazer cumprir as obrigações:

  • Primeiro vêm os impostos do Estado, os salários dos colaboradores e os créditos garantidos dos bancos
  • De seguida aparecem os investidores não garantidos, os obrigacionistas comuns e quem tinha contratos por honrar

Não há um fundo ou ativos específicos dedicados a honrar este contrato. É uma promessa que depende a 100% da capacidade financeira de quem a assinou. Não quero com isto dizer que o buyback não vale nada. Em condições normais – sem pandemias, sem crises sistémicas – funciona e já usufruí desse mecanismo centenas de vezes nos meus próprios empréstimos. No entanto, é importante ter a noção de que é uma camada de proteção mais frágil do que parece quando apresentada como benefício pelas plataformas que o disponibilizam.

O que mudou com a regulação ECSP

Em 2020, o P2P europeu era o faroeste 😅 Como já referi, não havia regras nem regulação. E infelizmente, muitas pessoas maliciosas aproveitaram-se disso para montar esquemas fraudulentos.

Para contrariar isso, em 2021 foi implementado o regulamento ECSP (European Crowdfunding Service Providers), a primeira regulação europeia harmonizada para plataformas de crowdlending e crowdfunding. Tem vindo a ser adotada de forma progressiva pelas plataformas, e hoje funciona como filtro divisor do trigo e joio.

As plataformas sérias candidataram-se à licença e operam de forma regulada. Outras, continuam a operar sem responder a qualquer diretriz. Algumas, porque não conseguiram cumprir os requisitos exigidos pela norma (capital mínimo, transparência, auditoria, segregação de fundos) outras porque nem sequer tentaram.

A Mintos foi das primeiras a candidatar-se, e obteve licença de Investment Firm na Letónia, o nível regulatório mais exigente disponível – falei disso aqui, em 2022. Isso trouxe consigo, entre outras coisas, seguro de investidor até 20.000€ por conta.

A Afranga, patrocinadora deste artigo, também opera sob licença ECSP. Esta regulamentação tem várias implicações, como:

  • Requisitos de capital mínimo para poder operar.
  • Segregação obrigatória de fundos dos investidores numa instituição de pagamento europeia regulada (no caso da Afranga, é a Lemonway) – o dinheiro que temos em conta não pertence à plataforma.
  • Contrato direto entre o investidor e o loan originator, sem a plataforma como intermediária. Se a Afranga desaparecer amanhã, o nosso contrato de empréstimo continua legalmente válido, porque foi assinado diretamente entre nós e a empresa que originou o crédito.
  • Direito de arrependimento de 4 dias sobre qualquer investimento, sem necessidade de justificação. Se nos arrependermos da decisão de investimento num determinado projeto, temos quatro dias para desfazer.
  • Teste de conhecimento e experiência obrigatório antes de investir. A plataforma verifica se compreendemos os riscos e se o produto encaixa no nosso perfil.
  • KIIS (Key Investment Information Sheet) para cada empréstimo – documento standardizado com toda a informação essencial sobre o loan originator, riscos e características do investimento.
  • Reporte anual à FSC (o regulador búlgaro) com dados detalhados: todos os empréstimos financiados na plataforma, políticas de risco, procedimentos de verificação de mutuários, políticas de conflitos de interesse, e dados sobre atrasos e incumprimentos.
  • Supervisão contínua pelo regulador nacional.

Além disto, a ECSP vai além da plataforma. Permitiu também abrir caminho para novos mecanismos de proteção do investidor que antes não eram comuns em P2P, como o penhor de ativos.

A regulação não elimina o risco, mas elimina a falta de transparência e más práticas que estiveram por trás de muitas das perdas de 2020.

O penhor de ativos: uma proteção diferente

A grande diferença entre o buyback e o penhor de ativos está numa distinção simples: uma coisa é uma promessa, a outra é uma garantia real sobre alguma coisa concreta.

Com buyback, a empresa promete-nos que, se o empréstimo entrar em incumprimento, ela recompra-o. No penhor, a empresa dá-nos um direito legal sobre um bem específico, e esse direito fica registado publicamente. Se a empresa falhar, o bem pode ser vendido e o valor da venda usado para nos pagar. Não é uma promessa que depende da saúde financeira de quem a fez, mas sim um direito sobre uma coisa que existe e pode ser vendida para saldar a dívida.

É o mesmo mecanismo do crédito habitação, só que invertido. Quando pedimos um crédito para comprar casa, o banco empresta-nos o dinheiro e regista uma hipoteca sobre a casa. Se deixarmos de pagar, o banco pode executar a hipoteca e ficar com a casa. Num empréstimo P2P com penhor de ativos, nós somos o banco: emprestamos o nosso dinheiro, e um ativo do devedor fica registado a nosso favor.

Este “penhor de ativos” pode assumir várias formas, dependendo do tipo de empresa e do tipo de empréstimo:

  • Penhor imobiliário (hipoteca): sobre terrenos ou edifícios do devedor. É o modelo do SaveSmart Real Estate (escrevi sobre isto aqui).
  • Penhor sobre carteiras de crédito: a empresa que originou os empréstimos que estás a financiar cede-nos esses créditos como garantia. Se ela falir, os créditos continuam a ser nossos, e podemos cobrá-los diretamente.
  • Penhor sobre equipamentos, veículos ou outros ativos operacionais: comum em empréstimos a empresas com maquinaria específica.
  • Garantia corporativa: outra empresa do grupo (normalmente mais robusta financeiramente) responsabiliza-se pelo pagamento se o devedor original falhar. Aparece frequentemente como camada adicional em conjunto com o penhor.

Ambos mecanismos têm como objetivo resolver o mesmo problema, mas com abordagens diferentes:

BuybackPenhor de ativos
O que é, na práticaObrigação contratualGarantia real registada
Como protegeUma promessa de recompraUm bem concreto identificado
Quem paga em caso de falhaO loan originator (se ainda existir)Quem comprar o ativo em execução
Ordem em caso de falênciaCredor comum, no fim da filaCredor privilegiado sobre o bem
Depende de…Solvência da empresa que assinouExistência e valor do bem
Registo público?NãoSim, em registo oficial

Isto quer dizer que o penhor de ativos é uma proteção infalível e garante risco zero? Não.

  • Os ativos podem desvalorizar. Se o bem penhorado for um terreno e o mercado imobiliário cair 40%, a proteção pode ficar comprometida. É preciso que o preço se mantenha acima de um determinado valor e que exista alguém disponível para comprar. Aqui, o LTV (rácio entre o valor emprestado e o valor do ativo) é um indicador de extrema importância: num empréstimo com LTV de 66% há muito maior margem para o ativo perder valor sem prejudicar a recuperação do que com LTB de 90%, em que a margem é menor.
  • Executar uma garantia real não acontece de forma instantânea. Pode demorar meses ou até anos e pode ter custos legais que reduzem o valor recuperado.
  • O valor da avaliação depende de quem avalia. O mesmo acontece sempre que queremos pedir um crédito habitação: é feita uma avaliação que em princípio tem em conta o imóvel e o preço médio da região, mas há avaliadores mais conservadores e outros mais optimistas. O ideal é que estas avaliações sejam feitas de forma independente, por empresas com histórico verificável.

O penhor é um mecanismo de proteção estruturalmente muito mais forte do que o tradicional buyback, mas continua a ter riscos associados.

A minha abordagem, hoje

Continuo a ter posições na Mintos, Peerberry e muitas outras em que o buyback é a principal estratégia de proteção, e gosto de todas. Passam o meu primeiro requisito: plataformas reguladas, com supervisão, com estruturas de proteção auditadas.

Na prática, hoje a minha exposição a P2P está distribuída por quatro tipos de proteção estruturalmente diferentes:

  • Buyback + licenciamento ECSP + maturidade institucional: Mintos, Peerberry, etc
  • Crowdlending regulado pela CMVM em Portugal: Goparity (P2B, financiamento a empresas portuguesas)
  • ECSP + penhor de ativos: Afranga
  • Posições históricas em recuperação, sem novos reforços (a tentar retirar o que lá está, assim que possível): Crowdestor

O que tenho aprendido desde 2020 é que a diversificação em P2P não pode ser só sobre o número de plataformas. Estar exposto a diferentes tipos de empréstimos (empresariais, individuais, de várias geografias, para diferentes fins) e a diferentes modelos de proteção é crucial, porque nenhum é perfeito e cada um falha de formas diferentes, em momentos diferentes. Quanto mais diluído e distribuído o valor aqui alocado, menor o impacto das situações menos positivas.

A pergunta mais importante

Quando começamos a investir em P2P, a pergunta que temos de fazer (e responder) é: “em caso de incumprimento, o que é que protege o meu capital?”

  • Pode ser buyback, desde que com licenciamento em dia e, de preferência, com um histórico sério. Como se portou em 2020?
  • Pode ser penhor de ativos sob regulação ECSP.
  • Pode ser segregação de fundos numa instituição de pagamento europeia.
  • Pode ser o seguro de proteção de ativos, que cobre até 20.000€ por conta em caso de insolvência da plataforma.

Idealmente, será uma combinação de vários. E, como já vimos anteriormente, se a plataforma tiver licença ECSP, a maioria deles acaba por estar automaticamente garantida, por ser obrigatória para plataformas licenciadas.

O buyback não é mau. O que se passa é que a nova regulação trouxe novas formas de proteção, que vale a pena analisar.


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Toda a análise mantém-se válida fora deste período, mas esta campanha só é aplicável em julho de 2026.

A Afranga está a publicitar uma campanha com empréstimos do Stikcredit a 16% ao ano, prazo de 36 meses, durante o mês de julho. Os empréstimos vão sendo listados de forma rotativa ao longo do mês, à medida que os anteriores são financiados.

empréstimos P2P afranga

O Stikcredit é o maior loan originator da plataforma, como já tinha mencionado na review inicial da Afranga. Não tem garantia hipotecária como o SaveSmart Real Estate, mas tem penhor de ativos sob enquadramento ECSP, que foi precisamente o tema deste artigo.

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Disclaimer: este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Investir em P2P envolve risco de perda de capital. As decisões de investimento devem ser tomadas com base na tua situação pessoal.


Perguntas Frequentes

O buyback em P2P é uma garantia segura?

É uma obrigação contratual entre o investidor e o loan originator. Se a empresa que assumiu o buyback entrar em incumprimento, o investidor torna-se credor comum e a recuperação de capital depende da capacidade financeira da empresa em cumprir com as suas obrigações.

O que é o penhor de ativos em plataformas reguladas ECSP?

É uma garantia sobre ativos identificados da empresa que emite o empréstimo (mobiliário ou imobiliário). Se a empresa entrar em incumprimento, os investidores têm direito legal a executar esses ativos para recuperar o capital. É uma forma de proteção mais robusta do que uma promessa contratual.

O que é a licença ECSP e porque é que é importante?

A ECSP (European Crowdfunding Service Providers) é uma regulação europeia harmonizada, em vigor desde 2021, que estabelece requisitos mínimos para as plataformas de crowdlending e crowdfunding poderem operar na União Europeia. Exige capital mínimo, transparência, auditorias externas, segregação de fundos dos investidores em instituições de pagamento europeias reguladas, e supervisão por um regulador nacional. Foi um dos maiores divisores de águas do setor.

Faz sentido continuar a investir em P2P em 2026?

Tudo depende do perfil de risco e preferências de cada investidor.
Se houver esse alinhamento, pode fazer parte de um portfólio diversificado, contribuindo de forma muito significativa para uma renda passiva constante e com taxas mais elevadas que em outras lasses de ativos. O essencial é diversificar por plataforma e por modelo de proteção, e perceber que é uma classe de ativos com potencial de retorno alto, mas de risco também elevado.


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Disclaimer: A autora do blog Dama de Ouros não fornece recomendações ou aconselhamento financeiro. Todo o conteúdo presente neste blog reflete experiência pessoal e tem apenas fins informativos e educacionais, sendo qualquer decisão de investimento da responsabilidade do leitor.

Este é um artigo patrocinado pela Afranga. O conteúdo, opiniões e análise são integralmente da autora. Investir em P2P envolve risco de perda de capital e não há garantia de recuperação do valor investido.

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