E se fizesse eu a minha reforma?

Todas as pessoas que trabalham por conta de outrém descontam automaticamente para a Segurança Social. 11%, igual para todos, independentemente de rendimentos. Para os trabalhadores independentes é mais trabalhoso e custoso, porque são obrigados a descontar tudo do seu bolso e a enviar declarações de rendimentos e fazer os devidos pagamentos.

Além do que nos sai diretamente do salário e conseguimos ver no nosso recibo de vencimento, as empresas entregam ainda 23,75% adicionais.

Considerando apenas Segurança Social (e ignorando o IRS), um salário de 1000€ custa, na verdade, 1237€ à entidade patronal, e às mãos do trabalhador chegam apenas 890€. 35% do salário bruto é automaticamente enviado para a Segurança Social.

Salário brutoValor pago à SSO que a pessoa recebe após descontar SS
1000347,50890
1500521,251335
2000695,001780
30001042,502670

É assim que funciona, é um dado adquirido, não há como fugir. 

Mas… e se pudéssemos?

Porque gosto de simular cenários (mesmo os irrealistas, como é o caso deste), pus as minhas skills no Excel em uso para comparar duas opções:

  1. Continuar a descontar 11% dos meus rendimentos para a SS, aumentando gradualmente 1%/ano em função da evolução de rendimentos (para isto, usei o simulador de pensões disponível na Segurança Social Direta)
  2. Usar esse mesmo valor descontado para a SS para investir por minha conta, considerando 8% de taxa de rentabilidade

Nesta análise excluo o valor que a empresa desconta por mim e considero “apenas” os meus 11%.

Os descontos feitos para a Segurança Social permitir-me-ão receber 3.631,29€ na reforma, o que equivale a 3.019,37 €. É superior ao valor que recebo agora, porque é expectável que os meus rendimentos aumentem ao longo da minha carreira.

Investindo o valor da SS, conseguiria acumular, no mesmo intervalo de tempo, 896.127€. Pela regra dos 4%, poderia retirar anualmente 4% desse valor com baixo risco de acabar com o valor acumulado, isto é, 2.987€.

Então é mais vantajoso descontar para a SS?

Nem por isso, por um motivo: o património acumulado.

Na primeira opção, o património resultante dos descontos é zero. A reforma existe enquanto nós existirmos. A menos que tenhamos poupado paralelamente, então os ativos são inexistentes.

Já no segundo caso, a história é outra: temos 896.127€ no nosso nome. Este dinheiro pode ser deixado para futuras gerações, doado a causas ou instituições, ou então gasto à grande numa reforma verdadeiramente dourada. (avozinhos de dentaduras de ouro).

Se optássemos por deixar as contas a zero (como acontece com a reforma da SS), e assumindo que vivemos até aos 100 anos, podemos gastar…

🥁🥁🥁

6.486€

Bem sei que a Segurança Social serve para outras coisas e usufruímos dela muitas vezes ao longo da vida. Desemprego, problemas de saúde ou incapacidade, licenças de paternidade/maternidade, etc. Por isso mesmo, vamos então ver outro cenário.

Desemprego e doença

Neste exemplo vamos mais além, assumindo que o valor que a empresa desconta também nos seria pago. Vamos também considerar que, como pessoas responsáveis que somos, iríamos utilizar este aumento nos rendimentos para preparar situações de desemprego, doença e paragens voluntárias de trabalho, em vez de simplesmente o usar para elevar o custo de vida.

Para a situação do salário de 1000€, os números seriam:

  • Continuamos a usar para as despesas do dia-a-dia os 890€ que recebíamos anteriormente;
  • Os 110 + 237,50€ que antes eram descontados para a SS, serão colocados no nosso próprio Fundo de Liberdade

Anualmente recebemos 12.460€ para despesas correntes (1038€/mês considerando os 14 meses pagos) e conseguimos acumular 4865€ do que anteriormente descontávamos para SS (o equivalente a mais de 5 meses de salário mensal).

Em dois anos de trabalho, conseguimos acumular praticamente 1 ano de rendimentos. Ou seja, estamos já a ultrapassar (e bem!) o que teríamos direito de fundo de desemprego caso fossemos despedidos ao fim deste período.

E, melhor ainda, não teríamos de esperar ser despedidos para ter direito a este tempo sem rendimentos enquanto procurávamos um trabalho melhor: poderíamos ser nós a entregar a carta de despedimento e usufruir na mesma desse ano de rendimentos garantidos.

Não é opção

Isto são tudo simulações hipotéticas, porque em Portugal não podemos optar por assumir esta despesa para nós. E acredito que, dada a literacia financeira do país, na maioria esmagadora dos casos este desconto obrigatório é uma coisa boa. Caso contrário, aumento de rendimentos significaria apenas maior custo de vida e o problema da reforma seria empurrado para algo/alguém à frente.

O que estas contas malucas permitem é pensar se vale a pena descontar voluntariamente para a SS num cenário em que já atingimos o FIRE e a reforma antecipada. Claro que tudo depende da idade da pessoa e dos valores envolvidos, por isso deixo aqui a pairar esta ideia para pensarmos, quando a situação nos for apresentada e tivermos de fazer contas para decidir.

Já tinhas pensado nisto? O que farias se pudesses escolher?

6 thoughts on “E se fizesse eu a minha reforma?

  1. Eu se pudesse escolher, fazia como tu, e investia esse extra que não descontaria obrigatoriamente. No entanto, também como tu, penso que a maioria das pessoas não iria fazer desta forma, ainda falta um maior nivel de responsabilidade e literacia para entregar esse “poder” a cada um 😉
    Mas é definitivamente um bom tema para reflexão.

  2. O sistema da segurança social é insustentável a longo prazo, por isso penso que deviam ser efetivados descontos suficientes para um nível de subsistência, por ex ordenado mínimo, e dar a possibilidade de a pessoa poder fazer investimento com vantagens fiscais, um pouco à semelhança do que existe nos EUA.

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