A regra dos 4% passou a 4,7%

Nos anos 90, estava eu a nascer e dar os primeiros passos, William Bengen decidiu fazer uma pesquisa que respondesse a uma das maiores questões que encontrou no seu trabalho: quanto é suficiente para me reformar? O estudo inicial foi resumido à regra dos 4% e extrapolado para a comunidade FIRE. Agora, podemos ter um novo número para nos guiar, com base nas pesquisas mais recentes do autor. Será que afinal precisamos de acumular menos, com esta nova regra dos 4,7%?

A investigação de Bengen

Em 1994, o consultor financeiro americano Bill Bengen publicou um estudo que haveria de definir toda a carreira daí em diante. O que começou por ser uma pesquisa que lhe permitiria ajudar os seus clientes em idade de reforma tradicional, acabou por ser usado de forma arredondada para calcular o número FIRE, em reformas bem mais longas.

Todos sabemos que “rentabilidades passadas não são garantia de resultados futuros”, mas foi precisamente no passado que a pesquisa de Bengen se baseou para responder à pergunta:

  • Se alguém se tivesse reformado nesta data exata, com esta carteira, que percentagem da carteira poderia retirar no primeiro ano, ajustando à inflação todos os anos seguintes, para chegar ao final de 30 anos com zero dólares?

Com base em dados reais de retornos e inflação, repetiu os cálculos para hipotéticos reformados em 1926, 1927, 1928 e por aí fora. Isto resultou em cerca de 400 cenários ao longo de um século, cada um com o impacto de tudo o que aconteceu na sequência de 30 anos em que a sua reforma decorreu.

Cada reformado teve uma resposta diferente. Alguns felizardos chegariam a zero com uma taxa de retirada de 13%! Outros com 9%, outros com 7%. O mais azarado é o único que conhecemos bem: o pior cenário da história, até ao momento, verificou-se para quem se reformou em outubro de 1968, e originou a regra dos 4%. No pior cenário da sempre até hoje, com mercados fracos e inflação altíssima, 4,15% garantiriam sucesso, com base nos pressupostos.

A regra dos 4% nunca foi uma média, como muitas vezes vejo dizer. Não tem nada a ver com os mercados dão 8%, a inflação é 2%, por isso tiras 4% e o dinheiro ainda continua a crescer. A regra dos 4,15%, arredondada para 4%, vem do pior resultado de toda a amostra: representa o valor que garantiu que o dinheiro durava 30 anos, em todos os cenários passados.

Para a maioria, 4,15% seria conservador demais. Apenas uma pessoa, o tal de outubro de 1968, precisaria de uma taxa tão baixa para aguentar esse período, todos os outros poderiam ter retirado bastante mais.

Os pressupostos e a extrapolação

Os 4,15% verificaram-se para pressupostos bem definidos:

  • duração de reforma: 30 anos
  • valor no final do período: zero
  • valor de retirada: taxa definida no primeiro ano, e despesas ajustadas à inflação daí em diante
  • distribuição de carteira: 60% ações de large companies americanas / 40% obrigações governamentais americanas de médio prazo
  • sem impostos
  • rebalanceamento da carteira: anual

Cada um de nós tem diferentes impostos, diferentes durações para o seu FIRE, diferentes objetivos para o fim do prazo – quero deixar herança ou gastar tudo? – e, com toda a certeza, diferentes distribuições de portefólio.

Alguma vez fez então sentido usar a regra dos 4%?

Claro que sim! A regra dos 4% dá-nos um alvo para onde apontar. É simples, é fácil de calcular, dá-nos indicação da ordem de grandeza do património que temos de acumular para podermos atingir a liberdade financeira.

A verdade é que. no início da nossa jornada, só precisamos de um número redondo. Independentemente de o número FIRE calculado ser 300.000 ou 600.000€, o que temos de fazer hoje é o mesmo. São ambos tão distantes que, seja qual for o correto, não há qualquer diferença prática no nosso dia a dia, no presente.

Procurar solução quando existe um problema

Eu tenho mesmo muita dificuldade em gastar energia a antecipar e planear cenários hipotéticos que nem sei se algum dia irão acontecer. Muitas vezes me perguntam: como vais lidar se deixares de ter essa renda mais baixa? Como considerar os impostos no FIRE? E se acontecer X ou Y? A minha resposta é sempre em torno de: não sei, quando/se acontecer, lido com isso e procuro alternativas.

A regra dos 4% serviu bem para ter o tal alvo grande o objetivo SMART. Não precisava de gastar energia adicional a tentar aprimorar as contas, porque era uma realidade tão distante que o número redondo servia muito bem.

No entanto, agora a realidade mudou: começo a aproximar-me do número (ainda que distante) e, mais do que isso, percebo que quero mesmo atingir a independência financeira para deixar de sentir a pressão de ganhar dinheiro (que ainda existe no FIRE Flamingo). Então, o que é que eu fiz? O que faço sempre: mergulhei a fundo na toca do coelho, direcionei todo o meu foco e energia para descobrir tudo o que há para saber sobre taxas de retirada seguras, de preferência no contexto FIRE (com reformas mais longas que os 30 estudados pela regra dos 4%).

O primeiro livro em que mergulhei de cabeça foi o “A Richer Retirement – Supercharging The 4% Rule To Spend More And Enjoy More“, precisamente do autor que originou a regra dos 4%.

A nova regra dos 4,7%

Trinta anos depois, Bengen refez o trabalho e publicou-o neste livro, em 2025. Não só há mais dados e mais reformados para analisar, como também foram testadas diferentes configurações nos 8 elementos que podem afetar o resultado final: tipo de retirada, horizonte temporal, impostos, deixar herança ou não, distribuição da carteira, frequência de rebalanceamento, investimento passivo ou ativo, frequência de retiradas.

A alteração principal que levou à melhoria da regra verificou-se na distribuição do portefólio. O estudo original usava duas classes de ativos: ações americanas de grande capitalização e obrigações de médio prazo. A versão atual usa sete: juntou empresas médias, pequenas e micro, ações internacionais e dinheiro em fundos de mercado monetários.

Com esta nova configuração, o pior cenário – que continua a ser o reformado de outubro de 1968 – poderia retirar 4,7% e chegar ao final dos 30 anos com os mesmos zero euros na carteira.

Mais uma vez, esta regra aplica-se a um conjunto de pressupostos específicos, que muito provavelmente serão diferentes dos nossos. No entanto, se antes podíamos usar cegamente, para números redondos, a regra dos 4%, então acredito que faz todo o sentido passar a usar este valor atualizado de 4,7%. As diferenças são espectaculares!

Despesas mensaisValor FIRE – regra 4%Valor FIRE – regra 4,7%
1000300 000255 319
1500450 000382 979
2000600 000510 638
2500750 000638 298
3000900 000765 957
35001 050 000893 617
40001 200 0001 021 277

Fazendo esta alteração no portefólio, adicionando diversificação, é possível reduzir em 15% o património necessário para o mesmo resultado.

Ninguém quer estar errado

Trazer 6 ovos e ver que a receita do leite creme exige 8, é chato… Mas perceber que nos enganámos nos números e que o dinheiro vai acabar antes do suposto é aterrorizante.

A regra dos 4,7% funcionou sempre no passado. Mas a segurança existe apenas no contexto histórico, ninguém pode garantir que funcione no futuro. Confiamos na história porque não temos nada melhor, e sabemos que extrapolar do passado para o futuro tem os seus riscos. Este problema combate-se com flexibilidade e com um acompanhamento daquilo que está a acontecer e o que, na teoria, seria suposto.

Outra questão é: se os nossos pressupostos são diferentes, acrescentamos outra camada de risco. Não só o futuro poderá ser diferente, como o passado estudado não tem nada a ver com o nosso e não há qualquer garantia de já ter resultado ou vir a resultar.

O que sabemos, com base na história

Para resumir as maiores aprendizagens deste livro:

  • Inflação é o pior inimigo do reformado. Crises e quedas de mercado são prejudiciais, mas eventualmente passam e os mercados recuperam. Já com a inflação, a história pode ser diferente. O reformado de 68 é o menos afortunado da história precisamente porque teve de lidar com inflações altíssimas durante anos a fio.
  • Os primeiros 10 anos são cruciais. O sucesso do plano depende, muitas vezes, pelo que acontece nos primeiros anos. Isto porque há muito tempo para o juro composto fazer o seu trabalho: seja ele positivo ou negativo, os efeitos multiplicam-se nos anos seguintes.
  • A duração da reforma tem muito impacto na taxa segura. Não podemos assumir a mesma taxa para alguém que anteveja uma reforma de 30 anos e outra que espere que o dinheiro dure 50.
  • Há uma correlação muito próxima entre as taxas de retirada seguras, a inflação e o Shiller cape. O autor conseguiu encontrar correlações e desenvolver tabelas para encontrar a taxa segura para diferentes cenários (segura, dentro das considerações já explicadas).

O Shiller CAPE foi criado pelo Robert Shiller, que ganhou o Nobel da Economia em 2013 (fiz um curso dele durante o lay-off, em 2020, bons tempos! 😅) e é o equivalente ao P/E das ações, mas para o mercado. Este rácio preço/lucro mostra se as ações (ou mercado) estão caras ou baratas. É usada a média dos lucros dos últimos 10 anos, corrigida pela inflação, para refletir um ciclo económico inteiro e evitar distorções nos números.

Se o Shiller PE é baixo, os mercados estão baratos e os retornos esperados para a década seguinte tendem a ser mais altos. Se está alto, o contrário. Isto diz respeito ao longo prazo, por isso para adivinhar o momento de compra e vende não resulta: basta ver que os valores estão elevados há anos e os mercados continuam a subir.

A média deste Shiller PE é 17. O mínimo foi 5, na Grande Depressão, e o máximo foi 44, em dezembro de 1999. Isto no curto prazo não tem grande relevância, porque os valores estão elevados há vários anos e os mercados continuam a subir – nada de usar isto para tentar adivinhar o momento de comprar e vender, não resulta. No entanto, como dito anteriormente, há uma correlação muito forte entre este Shiller CAPE e as taxas de retirada seguras, por isso é um bom indicador a usar no cálculo da taxa de retirada individual, tendo em conta o momento da reforma.

Fiz um simulador!

Com base nas tabelas do autor para diferentes pressupostos: duração, distribuição da carteira, shiller cape no momento da reforma, recebemos a taxa de retirada segura calculada. 🎉

No meu caso: para 12.000€ de despesas anuais, 50 anos de reforma, distribuição 65/30/5 sem herança, Shiller Cape de 40 e inflação média esperada baixa, a minha taxa de retirada segura é de 5,43%. Isto significa que, com estes pressupostos, atinjo a independência financeira com o valor de 220.994€, daqui a 2 anos. 🔥

Erros frequentes no planeamento FIRE

Esta leitura e as conversas que fui tendo ao longo dos anos permitiram-me orientar a minha jornada no sentido certo, daquilo que está alinhado com o que pretendo, mas também identificar alguns dos erros que podem ser cometidos:

  • Ficar paralisado em pormenores. Nós não temos de ter o número definido no primeiro dia. Nem temos de planear os impostos. Nem temos de ter a certeza do portefólio ideal. Um número redondo, para o qual apontar, é mais do que suficiente. Uma distribuição da carteira simples e em ativos que conhecemos é tudo o que precisamos para iniciar.Vamos fazendo o caminho e aperfeiçoando o plano ao mesmo tempo.
  • Tratar o número como garantido. Mesmo depois de estudar tudo isto, como eu estou a fazer, é importante perceber que todos os estudos são baseados em amostras históricas ou simulações para futuro. Nunca podemos ter 100% certeza de que vai resultar.
  • Não pensar no próprio prazo. A regra dos 4% é para 30 anos de reforma, e o meu plano é de alguém que atingiu o FIRE Flamingo com 32. Nem eu me posso basear cegamente na regra dos 4%, nem o teu plano será igual ao meu, se não estivermos exatamente nas mesmas circunstâncias.
  • Definir o plano e nunca mais lhe tocar. Seja o plano de acumulação ou de retirada: é preciso avaliar e ajustar sempre que haja desvios naquilo que pretendemos.

A minha abordagem pessoal

Continuo a achar que a regra dos 4% ou, agora, dos 4,7% chega perfeitamente para começar o planeamento da jornada FIRE. No entanto, agora também sei que não é (de todo!) suficiente e que cada um de nós terá de afinar melhor os seus números quando se aproximar do número inicialmente calculado.

Nesta fase, já me faz sentido mergulhar neste novo mundo. O número redondo deixa de ser suficiente, começa a sr preciso afinar melhor a estratégia. Se ainda estás no início, não te preocupes para já, lê este artigo (tu não precisas de 1 milhão!) e começa a tua jornada. Se já estás nesta fase, fica comigo para os próximos episódios. Estou empenhada em descobrir tudo o que existe sobre o tema e partilharei as descobertas aqui, como habitual. 🫶

Perguntas Frequentes

Como é que se chegou à regra dos 4,7%?

Bengen simulou cerca de 400 reformados hipotéticos ao longo de um século de dados históricos americanos, cada um com a sequência real de retornos e inflação a partir da sua data de reforma. A taxa de 4,7% é aquela que funcionou para todos, definida pelo pior caso da história.

Qual a diferença entre o método de Bengen e uma simulação de Monte Carlo?

Bengen usa sequências históricas reais. Análises Monte Carlo geram milhares de sequências aleatórias a partir de parâmetros estatísticos, mas esses parâmetros são estimados com dados históricos. Ambas as abordagens assentam no passado e têm algo em comum: nenhuma tem garantia de estar certa.

A regra dos 4,7% é 100% segura?

Não. O próprio Bengen diz que o termo “seguro” só se aplica em contexto histórico e que não pode garantir nenhum plano no futuro.

Preciso de saber o meu número FIRE exato desde o início?

Não. Enquanto estamos longe do objetivo, as ações que temos de implementar hoje são as mesmas, qualquer que seja o número: poupar e investir. A precisão só importa quando a data de reforma se aproxima.

O que fazer se o plano começar a correr mal?

Se o desvio for persistente, ajustar – cortar despesas temporariamente, gerar rendimento, ou rever o plano. O plano de retirada pode ser alterado a qualquer momento, sempre que as circunstâncias o justificarem.


Disclaimer: O blogue Dama de Ouros não fornece recomendações ou aconselhamento financeiro. Todo o conteúdo presente neste blogue tem apenas fins informativos e educacionais, sendo qualquer decisão de investimento da responsabilidade do leitor. Investir tem risco, faz a tua própria análise.

13 thoughts on “A regra dos 4% passou a 4,7%

  1. Tendo em conta este conteúdo se estivesses ainda na fase de acumulação e a planear o Fire Flamingo, ponderavas para o valor novo 255 319? Ou seja metade desde valor para Fire Flamingo?

    1. Sim!
      O FIRE Flamingo continua a ser metade do valor FIRE, seja esse valor FIRE qual for. Se é mais baixo, o valor do FIRE Flamingo será mais baixo também 🔥

  2. Obrigado por este artigo, estava ansiosa por te ouvir a falar deste tema! O simulador está incrível também, só fiquei com uma dúvida: simulei duas versões, uma c/ 55/40/5 e uma com 55/40/5 + pensão externa (e os restantes valores mantive iguais) e com a versão da pensão o número FIRE aumentou. Não deveria ser o contrário?

    1. Hello!

      Tem a ver com os impostos. Com um nível tão alto, passa a considerar pagar uma taxa de imposto que de outra forma não era considerada.
      E na verdade eu acho que vou retirar essa opção da pensão externa do simulador, porque o valor considerado é 120.000$ por ano de pensão, que não reflete, de todo, a nossa realidade!

  3. Sei que na simulação está um exemplo com inflação entre 0 e 2 qualque coisa.

    Mas é possível meter mesmo inflação 0 para perceber a diferença?

    1. Olá!
      Não, porque nunca aconteceu na história e por isso não há dados para extrapolar. Podes por deflação baixa e ver a diferença

      1. É que, no plano que estou a desenvolver, tenho alguma confiança de que, durante muitos anos, vou conseguir manter a inflação dos meus gastos em 0%.
        A minha ideia é que, caso alguma variável aumente de preço consideravelmente, reduzo os gastos nas categorias de coisas das quais posso abdicar, como, por exemplo, viajar — nem que seja apenas naquele ano específico.
        Além disso, quero ter a casa paga, uma categoria que tende a contribuir bastante para a inflação dos cálculos utilizados.

        Daí gostar de saber a taxa de seguro num caso destes

        1. Percebo perfeitamente o ponto, mas nesse cenário podes usar a inflação baixa, que é de 0 a 2,5% e inclui o 0%.
          E esse plano funciona no curto prazo, mas nunca num horizonte de 30 ou 40 anos. Mesmo com todo o controlo e com algumas despesas normalmente presentes já pagas, chegará um ponto em que por muito que cortes nas outras coisas, começará a ser difícil pagar bens essenciais. Basta falar com os nossos pais ou pensar em quanto custava um pão quando andávamos na escola para perceber que o efeito de 2% ao longo de vários anos é sério, em tudo

          1. Sim concordo, que em algum momento teremos de aumentar os nossos gastos mas num horizonte de 40 anos de reforma ou mais se nos primeiros 5 ou até 10 anos conseguirmos manter a nossa inflação pessoal em 0% isto terá imenso impacto na taxa de retirada dos investimentos.

            Quem estuda estes estudo percebe que o problema com a taxa de retirada nem são as rentabilidades, em quase todas as hipóteses que falham, falham por inflação alta o que no meu caso em particular tenho confiança que pelo menos nos primeiros 5 a 10 anos será 0% e queria incorporar isto nos cálculos mas percebo que é difícil.

            Vou usar essa baixa que referes…

          2. Yap, percebo perfeitamente! Eu acredito no mesmo para mim! Mas lá está, 0% enquadra no 0-2,5%, portanto usando os estudos de William Bengen terá de ser essa a opção escolhida.
            A questão é que a análise dele é com base em dados históricos, e pura e simplesmente não existiram períodos de 20, 30 ou 50 anos com inflação exatamente igual a zero.

            Para isso e para poderes usar todos os valores personalizáveis, tens de pesquisar simuladores que se baseiem em simulações Monte Carlo ou algo do género: previsões estatísticas com base nos inputs usados pelos investigadores. Aí podes assumir que o futuro é o que tu quiseres (pode ter a tal inflação zero). Olhando para um simulador que se baseia em dados históricos temos de nos cingir àquilo que existiu na história.

            Ambos têm limites e nenhum adivinha o futuro, por isso vale o que vale! São bons para termos números redondos indicativos 🙂

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