A democratização dos investimentos está em constante evolução, e ontem a Trade Republic deu mais um passo nesse sentido: anunciou o lançamento de acesso aos Private Markets. Estes mercados privados estavam reservados a grandes investidores institucionais e a indivíduos com fortunas significativas (vários milhões eheh), mas, a partir de agora, qualquer investidor passa a ter acesso a este produto, a partir de 1€.
Mas o que são afinal os Private Markets? Que tipo de empresas estão envolvidas? Quais os riscos? Vale mesmo a pena incluir este tipo de investimento numa carteira de investimentos com o objetivo FIRE?
Neste artigo, patrocinado pela Trade Republic, reuni toda a informação que acredito ser importante para tomarmos decisões informadas.
O que são Private Markets?
Private Markets são investimentos em empresas ou ativos que não estão cotados. Ou seja, não podemos comprar ou vender essas participações de forma livre e instantânea em bolsa, como fazemos com uma ação ou um ETF. Nestes mercados privados, os investidores colocam capital em empresas em fase de crescimento, projetos inovadores ou ativos alternativos como infraestruturas, créditos ou imobiliário. Alguns exemplos são:
- Private equity/ Venture Capital: investimento em empresas privadas e startups com elevado potencial de crescimento.
- Private credit: financiamento direto a empresas privadas, sem usar bancos como intermediários.
- Infraestruturas privadas: participação em projetos como energia renovável, transportes, imobiliário ou comunicações.
Estas classes de ativos mais alternativas são conhecidas pelo potencial de retorno e histórico passado superior, mas também por apresentarem maior complexidade, menor liquidez e horizontes de investimento mais longos. Há menor transparência e mais “confiança” exigida.
Até agora, o acesso aos Private Markets estava limitado a fundos institucionais, investidores acreditados (“High Net Worth Individuals“) e fundos de pensões e bancos. Com este lançamento, a Trade Republic democratiza o acesso a esta classe de ativos, tornando-a disponível para qualquer investidor europeu.
Como funcionam os Private Markets na Trade Republic
Com esta nova funcionalidade, lançada apenas há uns dias, a Trade Republic torna-se pioneira ao disponibilizar Private Markets a partir de 1€, em parceria com duas das gestoras mais reputadas a nível mundial:
- Apollo Global Management: Um dos maiores gestores de Private Equity e Private Credit do mundo. Tem mais de 700 mil milhões de euros sob gestão, em diferentes setores e geografias
- EQT: Fundada na Suécia há mais de 30 anos, é uma das gestoras de Private Equity mais prestigiadas da Europa. Tem mais de 230 mil milhões de euros sob gestão e foco em sustentabilidade e crescimento a longo prazo.
No modelo tradicional de funcionamento de Private Markets, o capital fica bloqueado cerca de 10 anos. É um produto geralmente ilíquido, o que se pode apresentar como clara desvantagem para o investidor comum.
Para contornar isto, a Trade Republic disponibiliza um mercado secundário interno. Isso permite que os investidores vendam a sua participação mensalmente, embora em situações excecionais o processo de venda possa ser pausado e retomado no mês seguinte. A Trade Republic deixa um aviso: se houver um volume elevado de pedidos de venda, a liquidez pode ser limitada e adiada para o mês seguinte.
Riscos a considerar
Os Private Markets têm riscos, como qualquer produto de investimento. Neste caso, envolvem até maior complexidade e incerteza do que investimentos tradicionais. Entre os potenciais riscos destacam-se:
- Menor Liquidez: Apesar de a Trade Republic ter um mercado secundário, deixa o alerta que pode adiar a venda para meses seguintes caso haja muitas solicitações.
- Maior Complexidade: A estrutura é muito mais complexa do que ETF ou ações, pode ser difícil de compreender.
- Horizonte de Longo Prazo: Como qualquer investimento de alta volatilidade, o prazo de investimento deverá ser longo. É possível que os resultados só sejam visíveis ao fim de vários anos.
- Risco de Capital: Como em qualquer investimento, há risco de perda total ou parcial.
- Transparência Limitada: Por não estarem cotadas em bolsa, estas empresas não têm as mesmas obrigações de divulgação de dados. Há menos informação pública disponível em comparação com empresas cotadas.
- Produto sem capital garantido: apesar de a Trade Republic anunciar 12%, esse é o valor objetivo, não uma promessa real para futuro.
Vantagens dos Private Markets
Há, obviamente, vantagens, caso contrário este produto não captaria a atenção de investidores com grandes fortunas. Podemos resumir em 5 pontos principais:
- Potencial de retorno: as entidades gestoras procuram empresas em fase de crescimento acelerado ou ativos alternativos podem gerar retornos acima da média.
- Diversificação: Este tipo de investimento não está totalmente correlacionado com o mercado bolsista tradicional.
- Acessível a pequenos investidores: Através da Trade Republic, o valor mínimo de entrada é de apenas 1€.
- Gestão Profissional: Os ativos são geridos por especialistas, neste caso, Apollo e EQT.
- Liquidez Relativa: Através da Trade Republic existe a possibilidade de vender participações mensalmente, através do mercado secundário interno.
ETF vs. Private Markets
Para melhor compreender algumas das características, acho que pode ajudar fazer uma análise comparativa entre estes Private Markets e um ativo que já conhecemos bem: ETF.
| Característica | ETF Tradicional | Private Markets na Trade Republic |
| Liquidez | Elevada (compra/venda imediata em bolsa) | Mensal, com possibilidade de pausa |
| Investimento mínimo | Desde 1€ | Desde 1€ |
| Acesso | Público | Tradicionalmente restrito, agora acessível |
| Transparência | Elevada (dados públicos) | Menor, com relatórios internos |
| Horizonte temporal | Médio a longo prazo | Idealmente longo prazo |
| Risco | Moderado | Superior |
| Potencial de retorno | Moderado | Superior |
Comissões dos Private Markets
Os fundos disponíveis na Trade Republic seguem as mesmas regras de todos os investimentos em private equity, o que significa que têm custos de gestão significativamente mais altos do que aquilo a que estamos habituados com os ETF.
Apesar de os valores exatos dependerem do fundo e estarem sujeitos a alteração, em números redondos o que costuma existir é:
- Comissão de gestão anual: entre 1,2 a 2,5% do capital investido
- Comissão de performance: cerca de 20% sobre os lucros, após ultrapassar uma taxa mínima de retorno (hurdle rate)
- Outros custos: custos legais, administrativos e de estrutura do fundo podem ser somados aos anteriores.
Estes valores não são cobrados diretamente pela Trade Republic, mas sim pelos próprios fundos, tal como acontece nos ETF. A diferença é que nos ETF estamos habituados a taxas entre 0,1% e 0,5% e aqui, com a gestão ativa e todas as particularidades de um produto complexo, podem chegar ser 5x mais elevadas.
A Trade Republic ainda não publicou os detalhes exatos de cada fundo (por exemplo, no KIID ou fact sheet). Antes de investir, caso se escolha fazê-lo, é essencial verificar os documentos do fundo, disponíveis na app ou website, para saber exatamente quanto vai custar.
Faz sentido ter Private Equity num plano FIRE?
Como em todos os ativos, se faz sentido ou não juntar ao portefólio depende das vontades, abordagem e gostos de cada investidor individual. Não acredito que faça sentido como ativo central de um portefólio FIRE, até por todos os constrangimentos que podem estar associados ao resgate do dinheiro.
Pode funcionar como componente de diversificação e potencial de crescimento. Tal como bitcoin pode encaixar numa carteira para diversificação e baixar correlação entre ativos, também estes private markets podem ser uma opcão a considerar para este fim.
Como ter acesso
Para quem já é cliente, é necessário atualizar a aplicação. Mesmo depois de o fazer, pode ser necessário aguardar 1 ou 2 dias para ter o produto disponível (aconteceu comigo, não ficou disponível de imediato).
Para quem não é cliente:
- Abrir conta na Trade Republic
- Depósito mínimo: a partir de 1€
- Aceder à secção Private Markets na app
- Escolher o produto ou fundo desejado
- Analisar toda a informação e confirmar que se pretende avançar
- Confirmar investimento
FAQ – Perguntas Frequentes
Posso perder o meu dinheiro?
Sim. Como em qualquer investimento, existe risco de perda parcial ou total do valor investido.
Consigo sair do investimento?
Sim, todos os meses existe uma janela de liquidez para vender a participação. Pode ser suspensa temporariamente, caso haja muitas solicitações.
Que rentabilidades posso esperar?
Não existem garantias. Apesar de os anúncios indicarem 12%, este é um valor “target” e não uma promessa de rentabilidades.
Quais as comissões?
Atualmente, a Trade Republic não cobra comissões diretas de manutenção neste produto. Existe uma comissão de 1€ por compra e venda, que desaparece caso haja um plano automático. Há comissões de cada fundo, cobradas pela gestora do fundo, que são liquidadas automaticamente através dos ativos sob gestão.
Conclusão
Independentemente de estarmos ou não interessados em adicionar este produto à carteira, esta novidade da Trade Republic é, na minha opinião, um motivo para celebrar. É mais um passo na direção certa, na democratização dos investimentos, em que todos temos as mesmas oportunidades, sem barreira de entrada. Com 1€ podemos aceder aos mesmos produtos que, até há uns dias, estavam reservados apenas a milionários.
Vou aguardar mais novidades e desenvolvimentos, principalmente no que toca aos tais custos de gestão e detalhes mais concretos sobre os produtos disponíveis. Assim que tenha essa informação, atualizo aqui o artigo. 🫶
Disclaimer: A autora do blog Dama de Ouros não fornece recomendações ou aconselhamento financeiro. Todo o conteúdo presente neste blog tem apenas fins informativos e educacionais, sendo qualquer decisão de investimento da responsabilidade do leitor.
Todos os investimentos têm risco. Resultados passados não são garantia de rentabilidades futuras. Faz sempre a tua própria análise antes de fazer qualquer investimento.
Este artigo é patrocinado pela Trade Republic.
Obrigado pelo artigo e pelo esclarecimento.
A parte das energias renováveis e startup’s é interessante, mas não parece ser um ativo para mim, pelo menos para já. Verei no futuro.
Olá, tinha curiosidade em saber o que são!
Parece ainda mais arriscado do que P2P.
Obrigado pelo artigo
Não sei se é mais arriscado do que P2P, mas mais arriscado que ETF ou outros fundos de empresas cotadas é de certeza
Obrigada por este artigo! Sabee como funciona a nível de impostos? É como nos ETFs e acções (28% sobre mais valias, se não optarmos por englobamento)?
Obrigada!
Em princípio todos rendimentos de capitais são tributados da mesma forma! Mas melhor confirmar com um contabilista 🙏