Simplifica o FIRE

Esta semana fiz uma reflexão na minha página de instagram, a propósito de o meu número FIRE ser calculado para despesas mensais de 1000€.

Há sempre quem me pergunte se não preferia acumular mais para poder gastar mais, mas a verdade é que a minha vida agora é muito próxima daquela que pretendo ter numa possível reforma antecipada: três ou quatro viagens por ano, viver na zona em que vivo ou próximo, aproveitar o tempo livre para escrever e fazer longos trilhos na natureza.

Sem trabalho, desapareceriam imediatamente as despesas de combustível e portagens para a empresa. Indiretamente, e mais difíceis de calcular, reduziriam os take-aways ocasionais necessários de vez em quando, quando não tenho tempo ou me sinto demasiado cansada para cozinhar, os snacks na máquina ou roupas específicas para as funções que desempenho, que de outra forma não compraria.

Este ano conto gastar 13 166€. 1097€ por mês. 10% acima do que estimo gastar na reforma.

E se eliminar as despesas do trabalho?

Nesse caso, passam a 11 250€. 938 €/mês. 6% abaixo do que estimo gastar na reforma.

E se eliminar também as despesas do blog?

Nesse caso, as despesas anuais totalizam 10 588€. 882€/mês. 12% abaixo do que estimo gastar na reforma.

Estes 1000€ para mim estão, na verdade, sobrestimados. Deixam ainda uma margem de 12% para introduzir todas as despesas que na altura da reforma me apetecer adicionar. Uma viagem extra? Jantar fora mais vezes? É só decidir na altura!

Há muitos custos associados ao trabalho que, pura e simplesmente desaparecem na reforma antecipada. Um exercício muito poderoso, e que pode ajudar na tomada de decisão quando temos, por exemplo, duas ofertas de emprego com condições diferentes, é calcular o verdadeiro valor-hora. Quanto recebemos, na prática, por cada hora dedicada ao trabalho (que inclui deslocações e tempo extra, além das 8h diárias) e tendo em conta as despesas a que o trabalho nos obriga (combustível, roupa, snacks, almoços fora, etc).

O que eu queria com este post

Mostrar que os meus 1000€ de despesas mensais são, na verdade, bastante conservadores. Hoje em dia gasto mais que isso, mas uma boa fatia das despesas desapareceria se deixasse de trabalhar.

No meu caso o valor são 1000€, para outra pessoa podem ser 500 ou 3000€. Isso é irrelevante. O que importa neste caso, e que (quase) todos temos em comum: despesas associadas ao trabalho, que no FIRE desapareceriam.

Achamos que precisamos de mais dinheiro do que o que gastamos hoje, mas a verdade é que podemos realmente gastar mais, mantendo o nível atual de despesas, simplesmente cortando as despesas associadas ao trabalho (para quem trabalha remotamente podem não ser assim tão significativas, mas para mim são).

Neste post partilhei os meus números e situação específica. A reflexão era esta. O objetivo é sempre o mesmo: tocar um tópico interessante e convidar, quem tiver interesse em saber isso para si, a fazer as suas próprias contas para os seus valores individuais.

O que eu consegui com este post

Na maioria dos casos, o objetivo. Uma reflexão dos custos de trabalhar 🙌

Num número mais pequeno mais ainda assim considerável? Despertar o tipo de preciosismo que não tem qualquer utilidade e não leva a lado nenhum.

“Podem ser 1000€, mas são 1000€ de 2022, o que vai equivaler a 1.xxx€ na tua data FIRE. Os 300.000€ ou o que quer que seja o número, tem de ser com base em 1.xxx€, não 1.000€”

“1.000€ hoje podem não ser os 1.000€ quando me quiser “reformar”.”

“A minha dificuldade prende-se de aos dias de hoje não me parecer um valor muito realista, sobretudo à luz dos custos crescentes com habitação.”

“Não ajustas esse valor em cerca de 2% ano, a tal inflação desejada pelos economistas e considerada ideal? Ou só tens em conta as tuas despesas atuais reais?”

Atenção, não estou a criticar nem levo a mal este tipo de comentários. Estou a usá-los como exemplo nesta ideia que quero passar aqui, porque custa-me ver este tipo de entraves como desculpa para não se iniciar a jornada FIRE (não sei se é o caso das pessoas que comentaram esta publicação, mas sei que é o caso de muitas outras com as quais me fui cruzando ao longo destes últimos anos).

Todos sabemos que existe inflação.

Mas alguém sabe qual será a sua inflação real ou quais serão as suas despesas reais daqui a 10 ou 20 anos?

Imagino que não. Eu não sei, de certeza absoluta.

E por isto temos duas opções:

  • fazer estimativas e cálculos com base em previsões de inflação e de alterações no estilo de vida (vamos gastar tempo e vamos errar)
  • fazer contas com os dados reais que se tem atualmente, e gastar um minuto extra na vida a atualizar, sempre que necessário (podem passar anos sem o fazermos. O meu nunca foi atualizado, desde 2019)

O único dia em que temos de ter a certeza do valor das despesas é o dia em que decidimos abandonar o trabalho e iniciar a reforma antecipada.

Até lá, estes preciosismos só causam preocupação desnecessária e, nos casos mais graves, inação. Servem de desculpa para ainda não se ter começado.

Já me cruzei com todo o tipo de desculpas, de pessoas que pretendem atingir o FIRE, para ainda para não terem iniciado a sua jornada. As mais comuns são:

  • vivo com os meus pais, por isso ainda não sei que despesas vou ter
  • quero ter filhos e não sei como os incluir nas despesas

O que importa, nos primeiros anos da minha jornada, se o meu valor FIRE é 358 695 € ou 478 562 €? ou 954 658 €?

Nada.

Os passos que tenho de dar hoje são exatamente os mesmos em qualquer um dos cenários.

Flexibilidade

Se queremos o FIRE, provavelmente é porque consideramos que o tempo é a coisa mais valiosa que podemos comprar. E, por isso mesmo, deve ser aproveitado ao máximo, tanto agora como na reforma antecipada. Assim, gastar este tempo valioso a prever o futuro quando não muda nada no plano atual, parece-me um grande desperdício.

Se queremos ser bem sucedidos na jornada FIRE, temos de ter flexibilidade e a perfeita noção que as coisas vão mudar muito ao longo dos anos e, em muitos caso, teremos de nos adaptar e fazer as alterações necessárias para tudo correr bem.

As nossas despesas e rendimentos vão mudar, o retorno dos investimentos será diferente da média que utilizamos nas estimativas. As nossas preferências vão mudar. Já no FIRE, haverá alturas em que iremos ganhar dinheiro. Haverá alturas em que os mercados estarão favoráveis e outras em que veremos o nosso património reduzir significativamente. Temos de manter a mente aberta e estar preparados para alterar hábitos, sempre que nos parecer necessário ou tivermos vontade de o fazer.

Conclusão

O cálculo do valor FIRE é extremamente simples de fazer. Se conhecermos as nossas despesas atuais, podemos obter um número redondo para onde apontar. Este valor, mesmo que não esteja correto (não estará), serve perfeitamente para traçar o plano e começar a jornada.

Durante muitos anos faremos progressos lentos, mas consistentes, na direção desse grande número. Podemos ir recalculando o objetivo final, sempre que acharmos necessário, mas isso não deverá ter grande impacto no que estamos a fazer, no dia a dia, para o atingir.

Sempre que ligares o complicómetro e tiveres vozes na cabeça a dizer que não vale a pena começar já porque não sabes isto ou aquilo, lembra-te disto:

O único dia em que temos de ter a certeza do valor das despesas é o dia em que decidimos abandonar o trabalho e iniciar a reforma antecipada. Até lá, o que sabemos hoje chega perfeitamente.

BONS INVESTIMENTOS!

2 thoughts on “Simplifica o FIRE

  1. Vale sempre a pena começar.
    Fica muito difícil atingir o FIRE (por 1.001 motivos), o que perdemos por ter investimentos que nos podem ajudar com alguma liberdade financeira, por exemplo, que nos podem ajudar a ter as despesas fixas pagas e, com isso, ter liberdade para fazer escolhas? (escolher um outro emprego a tempo parcial ou com um rendimento mais baixo, mas que nos dá muito mais gozo?).
    EU não sei se vou conseguir atingir o FIRE – costumo dizer que, mesmo que seja 1 ano já fico feliz -, mas estou nesta jornada e a ter resultados que não teria se não tivesse este objetivo.

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