Quando acaba o dinheiro se as coisas correrem mal no FIRE Flamingo?

Todos os cálculos FIRE são feitos com base em pressupostos. Assumimos um determinado orçamento para alimentação, para saúde, para transportes. Há dúvidas que surgem com frequência: e se o futuro for diferente daquilo que antecipámos?

  • e se tivermos filhos?
  • e se o carro avariar?
  • e se tivermos problemas de saúde?
  • e se…?

São todas perguntas legítimas.

Mas há algo muito curioso em tudo isto: raramente são feitas a quem trabalha por conta de outrém. Parece que esta incerteza é muito mais grave para alguém que atingiu a independência financeira (ou está a fazer o percurso FIRE) do que para quem vive na típica roda do rato.

Como se, na independência financeira, estas fossem questões determinantes e, numa vida “normal”, se pudessem resolver mais facilmente.

Hoje decidi fazer as contas com os meus números e situação atual. Nem sequer atingi ainda o FIRE, por isso o artigo é numa perspetiva de FIRE Flamingo, em que não é suposto mexer nos meus investimentos. E a pergunta à qual quero responder hoje é: se as coisas correrem diferente do imaginado e tiver de mexer nos investimentos, quanto tempo passará até isto ser efetivamente um problema?


Antes de avançarmos, vamos ao disclaimer habitual: este artigo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Todas as decisões deverão ser tomadas por cada pessoa de forma individual, com base na sua situação pessoal e, se necessária ajuda, deverá ser consultado um profissional qualificado.


Tenho um fundo de emergência gigante, e em crescimento

👆 Esta é a grande arma de quem está na jornada para a independência financeira.

Mesmo que, para organização financeira e gestão de risco, façamos uma distinção daquilo que é almofadinha financeira para salvaguardar o curto prazo e investimentos de risco para longo prazo, a verdade é que todo esse património é nosso. E isso significa que, se precisarmos, podemos aceder-lhe.

Portanto, quando aumentamos o nosso património através da compra de ativos, não estamos apenas a trabalhar para o nosso futuro (apesar de esse ser o objetivo principal), mas também a reforçar a rede de segurança do presente.

Neste momento, tenho cerca de 200.000€ em meu nome. Entre dinheiro no banco, ETF, empréstimos P2P e afins, a soma já ascende a este valor. E, apesar de ainda não ter atingido a independência financeira, é uma quantia que já elimina muitas das preocupações tanto de curto como de longo prazo.

Vamos imaginar o pior cenário

Atingi o FIRE Flamingo, por isso o meu plano é trabalhar para cobrir as minhas despesas. Vamos assumir que, por algum motivo, isso não está a ser conseguido, e preciso de aceder ao valor acumulado a partir de HOJE.

Para começar, neste momento tenho duas partes da minha carteira com comportamentos completamente distintos:

  • 135.000€ em ETF acumulativos: crescem com o mercado, todos os lucros são reinvestidos e só concretizo lucros se os vender.
  • 65.000€ em ETF distributivos e P2P: geram juros e dividendos todos os meses. No primeiro semestre de 2026, recebi em média ~392€/mês. É saldo que pode ser transferido para a conta para ser gasto, sem necessidade de vender ativo nenhum nem prejuízo dos valores a receber nos meses seguintes.

Assumindo que preciso de tirar algum valor dos investimentos já hoje (seja porque as despesas aumentaram significativamente ou porque perdi a fonte de rendimentos), então esta distribuição permitiria: transferir para a minha conta os 392€ que os ativos distributivos pagam e vender apenas o valor que estivesse em falta dos meus ativos acumulativos.

Quando acabaria o dinheiro se eu parasse de trabalhar?

Se os 200.000€ estivessem em ativos sem risco e sem retorno, poderia gastar 1000€ por mês durante 200 meses (16 anos e meio!!) antes de ficar sem dinheiro para pagar as contas.

Tendo o dinheiro investido, o cenário é ainda mais simpático, porque o plano seria:

Fase 1: viver dos acumulativos (usando o escudo da renda passiva). Os ativos distributivos ficam intocados e continuam a gerar ~392€/mês. A venda dos acumulativos cobre a diferença entre o que preciso e essa renda.

  • Retirando apenas 608€ dos 135k, e assumindo uma rentabilidade anual de 5%, esta fase dura 44 anos! Teria 77 anos nesta altura.

Fase 2: os acumulativos acabaram. Quando os 135.000€ em acumulativos chegam a zero, passo a consumir o capital dos distributivos. A renda passiva vai diminuindo à medida que o capital também diminui, até eventualmente chegar a zero.

  • Começando a matar a galinha dos ovos de ouro, passam mais 10 anos até o capital se extinguir. Teria 87 anos nesta altura.

Podes mexer na taxa de retorno na simulação abaixo, para perceber o impacto desse fator externo nos meus números.

Simulação 1 — Quanto tempo duram os dois blocos?
🦩 Simulação 1
200.000€ em dois blocos: quanto tempo duram?
135.000€ em ETFs acumulativos (vendidos primeiro) + 65.000€ em ETFs distributivos e P2P (geram ~392€/mês de renda passiva, ficam para o fim). Retirada total: 1.000€/mês.
0% (parado)5% (conservador)10% (optimista)
Acumulativos
Distributivos

Esta simulação mostrou-me que eu estou numa posição ainda melhor que a que antecipava. Valida que tenho anos, décadas ou, no melhor cenário, a vida toda, para resolver alguma situação inesperada que surja.

Mesmo que a rentabilidade seja de 1,5% (algo que até os depósitos a prazo/certificados de aforro pagam), os 200k duram mais de 30 anos. Acho que é tempo suficiente para traçar um plano B, mesmo que procrastine muito 🫣🤪

E se as despesas aumentarem?

Das muitas perguntas que fui recebendo ao longo dos últimos anos, percebi que muitas pessoas temem acordar um dia e perceber que o seu portefólio desapareceu por completo.

Por isso, fiz uma segunda simulação pensada no cenário que toda a gente teme: e se precisar de gastar mais? Se tiver filhos, trocar para casa maior, ou um imprevisto de qualquer tipo, quanto tempo se passa até ver perdas palpáveis no meu património?

A simulação 2 mostrou-me quanto tempo demoraria a perder 10%, 25%, 50% e 75% do património com retiradas de 1000, 1500, 2000 e 2500 €/mês, mantendo sempre a renda passiva dos distributivos como amortecedor.

quanto tempo demoraria a perder 10%, 25%, 50% e 75% do património com retiradas de 1000, 1500, 2000 e 2500 €/mês

Não há forma de acordar um dia e ver o que o dinheiro desapareceu. Mesmo que tudo fuja muito do plano durante muito tempo, há também muitos anos para encontrar soluções e alternativas.

Se, temporariamente, houver necessidade de aumentar as despesas, então podemos fazê-lo sabendo que há tempo para reformular, mais à frente. Há tempo suficiente para ajustar, trabalhar mais uns meses se precisares, ou cortar despesas noutro lado.

O papel do escudo de retornos nesta fase

Não investi com o objetivo de receber renda passiva desde o início, mas desde sempre soube que faria parte do meu plano e estratégia de optimização e segurança.

Vamos comparar agora dois cenários para as mesmas despesas de 1000 €/mês:

  • A – 200k num bloco único, em ativos acumulativos: é necessário vender e retirar 1.000€ por mês.
  • B – O meu cenário real atual: 135k acumulativos + 65k distributivos com ~392€/mês de renda passiva.

Tudo isto depende, obviamente, da taxa de rentabilidade estimada (podes mexer à vontade na simulação 3), mas usando os mesmos pressupostos nos dois cenários conseguimos ver bem a diferença.

Com taxa de rentabilidade de 5%, no caso A o capital esgota-se ao final de 34 anos. No caso B, o ponto zero acontece apenas ao fim de 54 anos. 20 anos extra, por este “pequeno” pormenor!

impacto da renda passiva na resiliência do portefólio

E se, além de tudo isso, houver uma crise no mercado?

No dia em que publiquei este artigo recebi este comentário: “Basta ocorrer uma queda brutal e entrarmos em bear market e todas as tuas ideias vão água abaixo.” e é bem pertinente, por isso faz sentido incluir aqui essa variável!

Decidi então simular o cenário referido: o subprime. O que aconteceu nessa altura? Entre outubro de 2007 e março de 2009, o S&P 500 caiu 57%. O bear market durou 18 meses. A recuperação completa dos máximos demorou 4 anos.

E se isso acontecesse agora, ao mesmo tempo que deixava começava a ter de retirar 1000€ por mês dos investimentos?

Antes de avançar para os números, deixo aqui o lembrete que tudo isto é feito com números redondos e com o intuito de informar e exemplificar. Aqui estarei a simplificar mesmo muito, porque a minha carteira não é 100% S&P 500. Tenho ETF de índices globais, obrigações, P2P e ETF distributivos que se comportam de forma diferente em crises. Ainda assim, vou considerar o cenário do subprime como o descrevi anteriormente.

Vamos então a cálculos:

Com a queda acumulada de 57%, os ativos acumulativos sofrem um grande impacto. Para os distributivos, considero uma queda de 20%, uma vez que os dividendos e juros nunca são tão abalados como o valor das ações e obrigações.

Neste cenário, o dinheiro chega a zero ao fim de 22 anos. São 31 anos de diferença face aos 54 calculados anteriormente, mas ainda assim tempo suficiente para encontrar uma solução alternativa.

cenário subprime

Considerações e lembretes

Qualquer simulação para futuro terá de ter por base alguns pressupostos. Qualquer variação entre o pressuposto e a realidade resulta em desvios entre o que efetivamente acontece e aquilo que se calculou.

Por ter noção de todas as variáveis que estão totalmente fora do meu controlo, deixei de parte números como inflação (assumindo que a rentabilidade usada nas contas já é líquida deste “imposto” invisível) e os impostos propriamente ditos, que têm impacto no valor que se tem de retirar para ter, na conta e disponível para gastar, o valor líquido necessário.

O FIRE não é um jogo de tudo ou nada

Cada vez mais percebo que o FIRE não é um jogo de tudo ou nada. Mesmo ainda bastante longe do valor necessário para a independência financeira, conquistei uma posição que me permite poder lidar, com calma e serenidade, com qualquer imprevisto que me apareça.

Se tiver de aumentar as despesas, posso aumentar. Se quiser de parar de trabalhar por um tempo, posso fazê-lo. Se o meu carro avariar e tiver de comprar outro, avanço sabendo que não estou de modo algum a destruir aquilo que construí.

Se quiseres conhecer os teus números, podes experimentar o simulador que desenvolvi.

Convido-te a preencheres o último simulador deste artigo, para conheceres o teu número. Se te sentires desanimado com os resultados, volta ao início do artigo e relê. Cada euro poupado e investido consolida a posição financeira, tanto de futuro como de presente. A liberdade chega muito antes do FIRE tradicional e vale muito a pena trabalhar por isso. 🫶🔥

Calculadora FIRE — Dama de Ouros
🦩 Ferramenta

Qual é o teu número FIRE?

Preenche os teus dados e vê os teus resultados: quanto precisas de ter, onde estás agora e o que falta para chegares lá.

O que gastas por mês hoje
O que prevês gastar depois do FIRE
Total investido agora
O que investes por mês
Dividendos, P2P, rendas, etc. que já recebes
Taxa de retorno 5%
1% (muito conservador) 5% (histórico real) 10% (optimista)
🌱
A tua fase FIRE atual
Número FIRE
com regra dos 4% (25× despesas anuais)
O que falta
para atingir o número FIRE
Património projetado
Anos até ao FIRE
Progresso para o número FIRE 0%
🩺 Diagnóstico
Este cálculo tem fins informativos e não constitui aconselhamento financeiro. Os valores assumem rendimentos constantes e não refletem volatilidade, inflação, impostos ou alterações de despesas. Investe com base na tua situação pessoal.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que acontece ao dinheiro nos ETF acumulativos se eu não os vender?

O seu valor continua a oscilar a um ritmo que não conseguimos prever. Não distribuem dividendos porque os juros e dividendos são reinvestidos automaticamente. São a melhor ferramenta para maximizar o efeito do juro composto.

A regra dos 4% é válida com este modelo?

A regra dos 4% assume um portfólio uniforme com ações e obrigações americanas com um horizonte de 30 anos. Neste caso, a renda passiva dos distributivos reduz a taxa de retirada efetiva dos acumulativos, o que acaba por ser mais conservador do que a regra dos 4% standard. Não é um substituto da regra, mas é um complemento que a torna mais robusta.

Que retorno devo considerar nas simulações?

Tudo o que conhecemos são médias históricas, e todos sabemos que resultados passados não são garantia de retornos futuros. Este é um dos números que temos de estimar, e que dificilmente conseguiremos acertar. Além dos resultados futuros, depende também da composição do nosso portefólio: alguém que tenha 100% da carteira em certificados de aforro não poderá considerar a mesma taxa de rentabilidade de outra pessoa que invista 100% em ações.
5% é um valor commumente usado. Os mais optimistas podem considerar valores superiores, e os mais conservadores ou pessimistas podem considerar valores mais baixos.

Disclaimer: A autora do blogue Dama de Ouros não fornece recomendações ou aconselhamento financeiro. Todo o conteúdo presente neste blogue tem apenas fins informativos e educacionais, sendo qualquer decisão de investimento da responsabilidade do leitor.

3 thoughts on “Quando acaba o dinheiro se as coisas correrem mal no FIRE Flamingo?

  1. Olá e Parabéns
    Andava para perguntar qual a tua atual distribuição de portfolio e já respondeste com este post.
    Eu sou um pouquinho mais conservador (73% acum) mas também ainda estou na fase inicial da caminhada.
    Obrigado pela partilha de conhecimento
    Tudo de bom para ti e tua família

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